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Querido Diário,
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29.9.11

Sentada no meu sofá penso na vida...


Sou dessa leva de gente que tem como sina ver demais. Sentir demais. Amar quase do tamanho do amor. Traço de nascença, uma estranha dádiva que, durante temporadas, pra facilitar a própria vida, egoísmo que seja, a gente tenta disfarçar de tudo que é maneira que aprende. Mas não tem jeito, nunca terá, nascer assim é irremediável, o que é preciso é desaprender o medo.
Por tudo o que é mais sagrado nesse mundo e em quaisquer outros que não tenho certeza se existem, mas suspeito, muitas vezes eu desejei não ver tanto. Criança, quando senti isso sem saber palavras, inventei minha miopia. Não adiantou: o encurtamento dos olhos é só do lado de fora, por dentro eu vejo muito comprido. Alguns sentem vida, sentem beleza, sentem amor, com doses de conta-gotas. Eu, não: é uma chuvarada dentro de mim.
Que os sensíveis sejam também protegidos. Que sejam protegidos todos os que veem muito além das aparências. Todos os que ouvem bem pra lá de qualquer palavra. Todos os que bordam maciez no tecido áspero do cotidiano. Todos os que propagam a bondade. Todos os que amam sem coração com cerca de arame farpado. Que sejam protegidos todos os poetas de olhar e de alma, tanto faz se dizem poesia com letras, gestos, silêncios ou outro jeito de fala. Que sejam protegidos não por serem especiais, que toda vida é preciosa, mas porque são luzeiros, vez ou outra um bocadinho cansados, no escuro assustado e apertado do casulo desse mundo.

Ana Jácomo

10.4.11



Não sei se foi por preguiça, por condicionamento,
pela dificuldade de estarmos plenamente atentos no instante de cada ação.
O fato é que a planta havia morrido há semanas e durante todo aquele tempo eu continuei a regá-la, como se estivesse ali.
O vaso cheio de terra, vazio de verde, permanecia no mesmo lugar,
entre os outros, como se nada houvesse acontecido. Toda vez que eu repetia o movimento, eu me dava conta da estranheza do meu gesto,
mas acabava me entretendo com outra coisa e adiava mais uma vez a retirada do vaso.
Outra hipótese é o embaraço que às vezes temos para reconhecer a morte das coisas.
Para aceitar que o tempo delas acabou, embora possa ser tão óbvio como um vaso sem planta.
(...) Nossos gestos de desapego são capazes de criar espaço para o novo.
Minha mãe plantou outra muda de planta naquele vaso.
A última vez que vi, estava florida.

[Ana Jácomo]

- Desapego.... dificil?...

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